A premissa de que “não existe infraestrutura resiliente sobre terreno deformável” deve ser o ponto de partida para qualquer projeto que pretenda atravessar as próximas cinco décadas. Essa foi a principal mensagem apresentada pelo engenheiro civil e geotécnico Joaquim Rodrigues, diretor da Engegraut Engenharia, durante reunião-almoço promovida pelo SICEPOT-RS.
Segundo Rodrigues, a discussão sobre resiliência costuma concentrar-se em estruturas, materiais, drenagem, mudanças climáticas e eventos extremos, mas frequentemente ignora o elemento mais importante de toda a cadeia de engenharia: o solo de fundação.
“Não adianta projetar um galpão logístico moderno, uma rodovia, uma ferrovia, um terminal portuário ou um dique de contenção se o terreno sobre o qual a estrutura que será implantada continua sujeito a deformações excessivas”, destaca o engenheiro.
Ele enfatiza que o tema assume importância ainda maior no Rio Grande do Sul, especialmente nas regiões de Porto Alegre, Guaíba, Pelotas e Rio Grande, onde extensos depósitos de solos moles estão presentes em áreas estratégicas para a expansão da infraestrutura estadual.
Uma característica pouco compreendida desses depósitos é que muitos deles não apresentam resistência extremamente baixa quando avaliados por parâmetros tradicionais de ruptura. Em diversas situações, a argila consegue suportar a aplicação das cargas sem que ocorra um colapso imediato ou uma ruptura generalizada. Entretanto, isso não significa que o solo seja adequado para receber obras de grande porte. O verdadeiro problema está na sua baixa rigidez, relata o engenheiro.
Ele explicou que, em termos geotécnicos, resistência e rigidez são propriedades diferentes. A resistência está relacionada à capacidade do solo de suportar tensões sem romper. Já a rigidez está relacionada à sua capacidade de limitar deformações quando submetido a carregamentos.
“É justamente nesse aspecto que as argilas moles gaúchas apresentam uma condição particularmente desfavorável. Embora possam apresentar resistência suficiente para evitar rupturas imediatas, essas argilas possuem módulos de deformação relativamente baixos, o que significa que sofrem deslocamentos verticais e horizontais significativos quando submetidas a novas cargas. Como consequência, surgem recalques excessivos, recalques diferenciais, deslocamentos laterais, abertura de fissuras, deformações em pavimentos e danos progressivos às estruturas construídas sobre elas”.
Na prática, isso significa que uma rodovia pode permanecer estável sem romper, mas sofrer deformações contínuas ao longo dos anos. Um aterro pode não deslizar, mas provocar recalques incompatíveis com a operação da infraestrutura. Um galpão industrial pode permanecer em pé, porém apresentar movimentações que comprometam pisos, equipamentos e fundações.
“Essa distinção é fundamental porque, historicamente, muitos projetos foram concebidos com foco quase exclusivo na resistência ao cisalhamento do terreno. Hoje, a experiência acumulada em obras rodoviárias, ferroviárias, portuárias e industriais demonstra que os maiores problemas de desempenho não estão associados à ruptura do solo, mas sim à sua deformabilidade excessiva”.
Como garantir que as obras de infraestrutura se tornem resilientes nos próximos 50 anos, período no qual estarão presentes eventos climáticos extremos, ciclos de cheias, períodos prolongados de saturação e aumento constante das solicitações operacionais? Segundo Rodrigues, o controle das deformações passa a ser tão importante quanto a própria estabilidade.
Para diretor da Engegraut, o conceito moderno de resiliência geotécnica deve ser baseado na redução da deformabilidade dos terrenos de fundação. “O problema não é apenas fazer a obra ficar de pé. O desafio é fazer com que ela continue operando adequadamente durante décadas, mesmo diante de condições ambientais cada vez mais severas”, afirma.
Nesse contexto, ganha importância a técnica de melhoramento dos solos, capaz de atuar diretamente sobre o maciço mole, modificando suas propriedades geotécnicas e aumentando simultaneamente resistência, rigidez e capacidade de dissipação de deformações.
CPR Grouting
Trata-se do CPR Grouting (Consolidação Profunda Radial), tecnologia desenvolvida no Brasil para promover o geoenrijecimento de solos moles através da formação controlada de bulbos de compactação profunda. Diferentemente de soluções que simplesmente transferem as cargas para camadas mais profundas, o método busca melhorar efetivamente o comportamento do solo mole existente, reduzindo recalques e aumentando a rigidez global do terreno, acrescenta.
“A filosofia é simples: se a resiliência da infraestrutura depende da estabilidade de longo prazo, e a estabilidade de longo prazo depende da limitação das deformações, então a resiliência começa inevitavelmente pelo solo”.
“Para os próximos anos, especialmente diante dos desafios enfrentados pelo Rio Grande do Sul após os recentes eventos climáticos extremos, a engenharia precisará incorporar cada vez mais essa visão. A reconstrução e expansão da infraestrutura gaúcha exigirão não apenas estruturas mais robustas, mas também terrenos de fundação mais rígidos, mais previsíveis e mais resilientes. Porque, ao final, não existe obra resiliente sobre um terreno que continua deformando. A verdadeira resiliência começa abaixo da superfície”.