Setor da construção pesada do RS, neste ano, deve ter um incremento de 50% em seu nível de atividades, diz Rafael Sacchi

Em entrevista à Construção Pesada, o engenheiro Rafael Sacchi, 35 anos – o mais jovem presidente da história do SICEPOT-RS- avalia a atual conjuntura do setor e antecipa suas principais metas à frente da entidade. De mais de 100 associados dos bons tempos, o Sindicato atua hoje com apenas 49, em um setor que conta com um potencial dez vezes maior, acredita Sacchi.

“Vamos estabelecer a meta de chegar a 100 associados nesse biênio da gestão, e isso inclui também as pequenas e médias empresas”, assegura. “É um desafio muito difícil, mas a presença do SICEPOT na história da infraestrutura dos transportes do RS é um ativo que não pode ser desprezado.”

Acompanhe a seguir os principais trechos de sua entrevista a Milton Wells:

Como foi o desempenho do setor no ano passado?

O setor teve um desempenho bem considerável para um momento de pandemia, até porque o governo do estado conseguiu, por meio de reformas administrativa e tributária, e auxiliado pelo “start up” do processo de privatizações de estatais deficitárias, especialmente pela privatização da CEEE-D, canalizar mais investimentos para o setor. O fato de o governo privatizar a CEEE-D, por meio da Equatorial, permitiu a regularização do ICMS devido pela empresa estatal, estimado em mais de R$ 2,7 bilhões. Isso está dando um fôlego novo ao Executivo, que poderá avançar mais a partir da aprovação do Regime de Recuperação Fiscal, a ser assinado com o Ministério da Economia. Em 2021, o DNIT-RS investiu R$ 515,7 milhões e o DAER R$ 531,4 milhões. O fato é que o estado passou a se mexer para conseguir materializar mais recursos para obras de infraestrutura.

Mas ainda não chega a atender toda a demanda?

Ainda não chegou, mas em parte devido ao próprio setor. Ainda vamos precisar de um tempo para nos adaptar. Ocorre que a demanda por serviços estava muito baixa, devido à pandemia, e a injeção de recursos encontrou o setor engessado. Para as empresas, faltou mão de obra e equipamentos, cujos preços, em alguns casos, mais que dobraram. Como o mercado reduziu suas atividades, a mão de obra se desvinculou do setor e isso trouxe muitas dificuldades para atender as obras. Além disso, tivemos uma redução na produção de insumos essenciais à construção civil e pesada, como asfalto, cimento, artefatos de concreto, aço, materiais em PVC e ferro fundido, entre outros itens não menos importantes. Quando o setor conseguiu se equilibrar, havia uma conjuntura adversa, na qual as reposições de índices setoriais sequer chegam perto da nova realidade econômica ditada pelo aumento da inflação real setorial. Resultado: não conseguimos atingir o teto dos recursos ofertados pelo governo do estado.

A atividade do setor já se ajustou à demanda?

Hoje o afinamento com a demanda das obras púbicas ainda é meio utópica. Por quê? Para ocorrer isso, deve haver uma série de ações e ainda estamos correndo atrás da roda. Isso se deve, em grande parte, ao fato de os preços ofertados pela Administração Pública estarem em um patamar muito abaixo dos custos que as empresas são obrigadas a pagar no mercado. Existem muitos custos constantes nas tabelas SICRO (Sistema de Custos Referenciais de Obras) e SINAPI (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices) que deveriam ser reorçados devido a essa conjuntura. Temos outros déficits, como, por exemplo, de entregas de caminhões. Os caminhões demoram até 10 meses para serem entregues, assim como escavadeiras, tratores de esteiras, retroescavadeiras, rolos, motoniveladoras, vibroacabadoras, entre outros, e isso faz com que o setor não consiga recuperar a pleno sua capacidade produtiva tão rapidamente. Perdemos mão de obra. Temos de treinar mão de obra novamente, o que se torna mais difícil ainda, pois demanda tempo para formar um bom profissional, e essa falta resulta em baixa produtividade. A baixa produtividade representa um custo enorme para o setor, e essa improdutividade é suportada exclusivamente pelas empresas do setor, porque o preço referencial do cliente se baliza em uma produtividade muito superestimada para a nossa realidade. Estamos o caminho de um ajuste à realidade de mercado, mas não depende só vontade e do know-how das empresas, depende de mão de obras, depende dos preços e da oferta dos insumos e equipamentos.

O setor tem alguma relação de obras com atraso?

Existem obras do DNIT que estão muito atrasadas, como da nova ponte do Guaíba – que não finalizou – e a BR-116, na qual alguns lotes estão sendo relicitados. Temos o caso da BR-290, em que uma boa parte de obras deve ser relicitadas ou mesmo ingressar num futuro processo de concessão. Mas não há paralisação de obras por fata de recursos em âmbito estadual. O que vemos é uma necessidade cada vez mais frequente de reequilíbrio nos contratos de clientes como a CORSAN, tendo em vista que seus principais insumos, como aço, equipamentos, ferro fundido, concreto, PVC, entre outros, vêm subindo paulatinamente com frequência elevada e de forma integrada e isso representa um custo enorme para o setor.

Em temos de capacidade instalada das empresas, qual o índice atual de produção?

O setor opera hoje entre 60% e 70% de sua capacidade instalada. Avançamos, mas estamos chegando a um ponto quase intransponível, porque está faltando mão obra e equipamentos. Existe, de fato, uma tentativa de retomada da produção das fábricas e fornecedores de insumos para o setor, mas ainda não é a ideal. Os equipamentos estão com preços muito acima da realidade, tanto por causa dos aumentos sucessivos nos custos do aço como por conta da lei da oferta e procura. Isso não pode permanecer por um período muito prolongado, pois senão o custo Brasil explodirá e inviabilizará a atividade econômica. Acabamos investindo muito em termos financeiros, mas teremos pouco retorno de obras e serviços de infraestrutura para a sociedade. Vai demorar ainda para regularizar a oferta desses equipamentos.

Qual a previsão de desempenho do setor neste ano?

Considerando recursos estaduais e federais, o setor, neste ano, deve chegar a um nível perto de 50% acima de 2021. No ano passado tivermos um investimento perto de R$ 1 bilhão, somando DNIT e DAER. Neste ano deve chegar a um montante de investimentos entre R$ 1,3 bilhão e R$ 1,5 bilhão.”

Quais as metas que pretende perseguir em sua gestão?

Uma das nossas prioridades é conseguir uma maior aproximação da entidade com as empresas do setor que, devido à crise sanitária, acabaram se distanciando do Sindicato, às vezes até por entender que o Sindicato estaria ficando obsoleto e que a vinculação representaria um custo do qual a associada poderia abrir mão. Mas o que enxergamos hoje é que, juntos, conseguiremos somar esforços. Importantes decisões são tomadas através das iniciativas do Legislativo e do Executivo. Nessa linha, o discurso alinhado entre as empresas do setor vai possibilitar o desenvolvimento de trabalhos técnicos e econômicos que podem ser dirigidos ao Legislativo e ao Executivo a fim de gerar investimentos e contribuir para o desenvolvimento da infraestrutura do RS. O fato é que, sem investimentos em infraestrutura, o país não voltará a crescer, não conseguirá sair da crise. Precisamos de investimentos em saneamento, em acessibilidade. Por exemplo, não adianta ter um hospital novo sem uma infraestrutura mínima para sua operação -água, esgoto, gás, energia- e com um acesso de muitos km de estrada de chão, em péssimas condições de manutenção. Isso o torna disfuncional.

Ainda faz parte de suas metas uma maior aproximação com as prefeituras. Como se dará esse processo?

Existe o programa Pavimenta do governo do estado, de obras de infraestrutura urbana, a partir de uma parceria com os municípios, que é muito bom. De nossa parte, estamos ajudando o Executivo na identificação e mapeamento de projetos para, em parceria com o estado, trazer novas ligações regionais, novos contratos de rodovias, pavimentação de novas vias. Estamos conversando com os municípios para que o setor público promover os melhores investimentos. Queremos somar esforços para ampliar os programas. Queremos ampliar o número de associados e a nossa capilaridade para que as empresas possam chegar mais facilmente aos municípios e auxiliá-los em projetos e programas, o que pode ser feito via FAMURS.

Há ainda a questão evolvendo a atuação do TCE nas obras do setor…

 É muito ruim quando, em uma obra em curso, após uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE), ela é suspensa por alguma possível irregularidade. Queremos fazer um trabalho de prévio com a participação do TCE para que as prefeituras sejam devidamente orientadas para lançar licitações com bases reais e que não atenda somente aos interesses do poder público, mas também do setor privado. Quem conhece os custos são as empresas que prestam serviço à Administração Pública, e nós estamos entrando num círculo vicioso que pode virar uma bola de neve. Quanto mais o tempo passa, mais as empresas se obrigam a dar maiores descontos para fazer uma obra, levando-as a praticar aquele velho dilema: é melhor assumir prejuízo com a obra ou bancar uma folha de pagamento e estruturas paradas?  As empresas assumem o prejuízo na esperança de um futuro próximo melhor, porém ele não vai chegar nunca se não tomarmos medidas que passam por um dialogo franco com o TCE e TCU como fizemos em visita ao presidente do TCE Alexandre Postal em oito de fevereiro passado. Para que os processos sejam adequados, precisamos falar a mesma língua, o que hoje não acontece talvez por falta de comunicação. Essa é um das metas que nós temos, além de uma séria de programas de qualificação de mão de obra também em conjunto com o sindicato dos engenheiros (SENGE) e com outras entidades que estamos prospectando para fazer cursos de capacitação com descontos para associados.