Reciclagem de pavimentos a quente: uma prática sustentável que ganha força no mercado

A SBS Engenharia, em conjunto com um de seus parceiros privados, desenvolveu equipamentos e infraestruturas industriais necessários à usinagem de misturas asfálticas recicladas a quente, técnica largamente adotada em países desenvolvidos que permite o reaproveitamento dos materiais provenientes do serviço de fresagem para remoção de pavimentos deteriorados das vias em conservação.

A utilização sustentável de materiais em todas as áreas da engenharia vem sendo aplicada de forma crescente em todo o mundo, especialmente devido a aspectos relacionados a questões ambientais e econômicas.

Na área rodoviária, a reciclagem de pavimentos, no Brasil, ganhou notoriedade a partir da versão atualizada da Norma Dnit 033/2021, que estabelece a sistemática a ser empregada na execução de camada do pavimento por meio da produção de mistura asfáltica reciclada em usina a quente, utilizando material de pavimento asfáltico fresado ou removido do pavimento (RAP).

Fresagem

A execução do serviço compreende a fresagem do pavimento asfáltico, seguida de seu transporte ao canteiro de obras, beneficiamento e peneiramento para classificação granulométrica, seguido de acondicionamento em pavilhão coberto. Sua usinagem se dá em usina de asfalto volumétrica, contrafluxo, com misturador externo,  devidamente adequada à recepção e incorporação do RAP.

Uma das dificuldades para a execução desse processo é a obtenção de matérias-primas, dada a variabilidade dos pavimentos asfálticos a serem recuperados, principalmente no que se refere ao tipo de mistura e de ligante que está sendo extraído da via. Nessa linha, existe a necessidade de um bom conhecimento do histórico da malha viária, garantindo a homogeneidade do RAP para o melhor aproveitamento da reciclagem em geral.

Sistema de tratamento e classificação

No RS, a reciclagem de pavimento vem sendo utilizada pela concessionária Ecosul, que administra 457,3 quilômetros do Polo Rodoviário de Pelotas. Para garantir a homogeneidade do material, a SBS Engenharia, de Porto Alegre, desenvolveu um sistema completo para o tratamento e classificação dos resíduos asfálticos oriundos dos serviços de conservação, adequando-os à reutilização em novas misturas asfálticas. Isso  permitiu, somente no ano passado, uma redução de custos ao longo de 100 km de obras, na rodovia BR-116, Pelotas-Jaguarão, de R$ 3,6 milhões, correspondente ao consumo de 668,5 toneladas de cimento asfáltico (CAP).

Segundo Nelson Sperb Neto, presidente da SBS Engenharia, o sistema de peneiramento e de adequação da usina asfáltica foi inteiramente desenvolvido pelos técnicos da empresa em sua usina de asfalto localizada em Capão do Leão.  “Com o sucesso das adequações executadas, a Ecosul pretende intensificar a utilização de pavimentos reciclados em suas atividades de manutenção da malha viária”, acrescentou.
Prática mundial consagrada

A reciclagem de pavimentos, segundo o professor Washington Peres Nunez, do Departamento de Engenharia Civil da Escola de Engenharia da UFRGS,  é uma prática mundial consagrada que somente no Brasil conta com mais de 30 anos de aplicação.

Na Escola de Engenharia, as técnicas de reciclagem são pesquisadas desde 2014 para esclarecer dúvidas dos profissionais e contribuir para a sua correta aplicação, o que permitiu desenvolver um método de dosagem em percentuais adequados, acrescenta.

 Entre essas pesquisas, o Departamento de Engenharia Civil desenvolve, em parceria com a Ecosul e outras empresas de iniciativa privada, a reciclagem com emulsão asfáltica (para pré- misturados a frio) e também a reciclagem a quente com misturas mornas (WMA + RAP). 

De acordo com Perez, existem duas maneiras de reciclagem ou reaproveitamento de materiais. Ao invés da reciclagem no local, pode-se fresar o revestimento asfáltico e para obter melhor homogeneidade este deve passar por um processo de seleção, especialmente para a retirada de agregados mais graúdos que podem dificultar a mistura. A Ecosul vem aproveitando o fresado em estoque ( veja na foto), e produzido uma variada gama de produtos nobres para diferentes camadas do pavimento.

O emprego do fresado, segundo Perez, é considerado uma prática sustentável porque no momento em que está fresando deixa de consumir outros materiais, como agregados pétreos (brita), com reflexos sob o ponto de vista ambiental já que esses agregados são recursos não renováveis.  Além disso, existe uma economia de custo com seu aproveitamento.

“Nos Estados Unidos existem casos de substituição de até 100% de brita por fresado. No Brasil não se chegou ainda a essa patamar tão elevado. Por enquanto a substituição de brita por fresado sustentável fica entre de 20% a 40%, mas vem avançando”, completa.