O declínio da atratividade do Brasil

Pela primeira vez em dez anos, o Brasil ficou fora da lista de países considerados estratégicos pelos principais executivos do mundo. A 27.ª edição da CEO Survey, realizada anualmente pela consultoria internacional PwC e divulgada na abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos, revelou que o país ficou com a 14.ª posição entre os mercados avaliados como cruciais para o crescimento dos negócios de suas empresas, atrás de Estados Unidos, China, Alemanha, Reino Unido, Índia, França, Canadá, Japão, Austrália e México.

Na pesquisa, realizada entre os meses de outubro e novembro, mais de 4,7 mil executivos em 105 países foram instados a citar três nações e territórios que eram os mais importantes na estratégia de crescimento de suas respectivas organizações, com exceção daquele em que o participante reside.

É inegável que a pandemia de covid19 mudou a dinâmica do ambiente geopolítico e econômico e, consequentemente, a visão que os CEOs têm sobre o Brasil. Mesmo os Estados Unidos, que lideraram o ranking deste ano, registraram queda nas menções por executivos. Foram citados por 40% deles no ano passado e por 29% neste ano. Segunda da lista, a China também teve queda nas menções, de 23% em 2023 para 21% em 2024. E nada menos que 30% dos executivos não indicaram nenhum país como relevante para o crescimento de suas empresas nos próximos anos, ante 19% no ano anterior.

O claudicante desempenho da economia na última década também explica parte da perda da relevância que o Brasil já teve no passado em termos globais. Há, no entanto, muito espaço para o País recuperar posições, tanto que os CEOs das companhias brasileiras demonstraram mais otimismo que o restante dos líderes empresariais.

Segundo a pesquisa, 55% dos presidentes das grandes empresas nacionais apostam na aceleração do crescimento econômico brasileiro, 15% apostam em estabilidade e 29% trabalham com a hipótese de uma recessão. Somente os chineses e os indianos demonstraram maior otimismo em relação às suas economias.

Isso tem tudo a ver com o controle da inflação, segundo o sócio-presidente da PwC Brasil, Marco Castro.

“É um traço cultural do brasileiro ser mais otimista do que a média global. E, talvez, ela se justifique neste momento por causa de alguns elementos. O assombro que a inflação representa para o brasileiro é muito maior do que para qualquer outra pessoa lá fora no passado recente”, disse Castro. “O fato de a inflação estar controlada, numa fase descendente, dá um sinal positivo para as reações do mercado. A taxa de juros está sendo reduzida, o que também dá um alívio para as empresas”, afirmou.

A trajetória mais recente do País mostra que há espaço para recuperar sua relevância no exterior. Desde 2016, por exemplo, o Congresso aprovou as reformas trabalhista e previdenciária, além de leis importantes como o marco do saneamento e a autonomia do Banco Central.

No ano passado, o país venceu um gargalo histórico ao aprovar a reforma tributária sobre bens e serviços, tema a ser regulamentado nos próximos meses. A força do agronegócio impulsionou as exportações e o crescimento econômico, o desemprego continua baixo e a renda se recuperou parcialmente depois de anos de estagnação.

Ainda há um enorme problema estrutural a ser enfrentado na área fiscal. O vigor do arcabouço ainda precisa ser testado, as receitas não se recuperaram da forma como a equipe econômica previa e o governo é avesso a qualquer debate sobre corte de despesas. Há muitas oportunidades de desenvolvimento na economia verde e na transição energética, mas aproveitá-las demandará investimentos pesados em educação e qualificação profissional.

Os desafios são grandes, mas o caminho para enfrentá-los já é mais do que conhecido. Basta não se desviar dele e seguir na trajetória de reformas que ampliem a segurança jurídica, fortaleçam o ambiente de negócios e atraiam mais investimentos. Só isso será capaz de proporcionar um crescimento econômico sustentável que devolverá ao País a relevância internacional que já teve no passado.

O Estado de S. Paulo