ARTIGO PONTE NOVA ROMA

A ENGENHARIA É UMA CIENCIA, NÃO UMA AVENTURA

A Engenharia é uma ciência que se utiliza dos recursos naturais, da física e dos modelos matemáticos para criar soluções e vencer obstáculos em benefício à humanidade.

Como toda ciência, tem pesquisa, normas, critérios e parâmetros que precisam ser adotados e praticados para se levar a termo estas soluções voltadas ao bem da sociedade.

No caso da infraestrutura, estes  empreendimentos  são  planejados  por  longo  tempo para, ao serem implantados, atender à  sociedade  por  gerações.  Entretanto, no  caso  de  modelos hidrológicos, como os adotados para pontes, barragens, portos etc, estes modelos são probabilísticos, não determinísticos, pois se estas estruturas fossem dimensionadas para além das catástrofes, seus custos de implantação seriam inviáveis e jamais teriam viabilidade econômica, salvo raras exceções como as adotadas em países com terremotos, furacões, etc.

Portanto, os fatos ocorridos no RS recentemente, com chuvas de recorrência decamilenar, são previstas consequências e prejuízos, infelizmente. Porém, não se pode buscar a solução de remediação sem nenhum critério técnico e de segurança, como vem sendo proposto para reconstrução da ponte de Nova Roma do Sul, datada de 1928, onde as demandas de carga sobre estas estruturas se apresentavam em parâmetros muito aquém dos atualmente praticados  no  âmbito  da  Engenharia Rodoviária, especialmente os trens-tipo dos veículos de carga atuais que estas pontes devem suportar.

Além destes requisitos de  carregamento  e esforços  para  dimensionamento  das estruturas de pontes atuais, uma estrutura com estas características exige estudos geotécnicos aprofundados no leito do rio onde se insere, para que com estas condições geotécnicas se tenha a correta solução de fundações.

Conforme noticiado na imprensa na data de 03 de outubro  último, está havendo um movimento para reconstrução da ponte de Nova Roma do Sul, sem nenhum dos critérios de ciência, física e matemática em epígrafe apresentados, agravados pela questão da situação dos pilares e fundações da ponte que ruiu, sobre os quais se quer reconstruir a nova ponte sem quaisquer requisitos de avaliação de segurança estrutural.

A Engenharia é uma ciência, não uma aventura, mesmo com o uso da ciência e da tecnologia ainda se têm acidentes como os ocorridos recentemente, reconstruir a ponte sobre parâmetros emocionais é uma aventura inaceitável que na melhor das hipóteses levará os usuários a riscos inaceitáveis e hipótese mais plausível os pilares e fundações estão comprometidos e o resultado da reconstrução sem critérios tende a trazer uma probabilidade de acidente catastrófico como consequência.

A vida é feita de risco e oportunidade, no presente caso o setor tecnológico entende que a oportunidade de reconstrução,  decorrente  do risco  que  trouxe  a ruína  da  estrutura,  se  deva  reconstruir  estas obras adotando critérios contemporâneos de carregamento, sendo  a nova  ponte  com duas vias de tráfego, trem tipo para cargas presentes e cumprimento das normas técnicas rodoviárias atuais, não de 1928, data original desta obra. Considerando os aspectos históricos desta estrutura, poderse-ia reconstruir a ponte também em seus parâmetros  originais  para  este  fim, porém  atendendo  pedestres,  turismo  regional e  cumprindo o requisito  de  memória  histórica,  mas  jamais  sobre  os pilares  e fundações existentes, os quais sofreram esforços não previstos  e  sobre  os  quais se  desconhece  sua  atual  capacidade de suporte. Portanto, estes devem ser demolidos e reconstruídos dentro de requisitos de plena segurança e atendimento aos requisitos da ciência e das normas técnicas.

A boa intenção da sociedade local e sua ação emocional de reconstrução podem levar a uma aventura de risco inaceitável, cujas  consequências  poderão levar o RS a lamentar outra tragédia, quando se pode trazer para esta atual situação também trágica uma solução contemporânea aplicável, dentro dos critérios técnicos e legais da contratação emergencial pelo Poder Público e uma solução então definitiva por gerações.

 

Cylon Rosa Neto, Presidente do Fórum de Infraestrutura do RS e Vice-presidente do Sicepot-RS

 

Autor: Cylon Rosa Neto